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“Lidar com a depressão me fez um gestor melhor”

publicado em 25 de agosto de 2017

Muitas vezes, profissionais que lidam com a depressão clínica fazem de tudo para esconder isso de seus colegas e chefes. Mas Libby Maurer defende que a condição não é um fator ruim no ambiente de trabalho. A pesquisadora, que busca aplicar conhecimentos sobre comportamento e cultura humanos ao design de produtos, afirma que sempre lutou contra a depressão e tentou esconder isso. Em artigo publicado na Fast Company, ela conta o que aprendeu com a depressão e como a doença a ajudou a se tornar uma gestora melhor.

“A depressão sempre foi uma luta em minha vida, e uma luta secreta. Não me lembro de uma época em que não convivia com esta condição. Já fiz muita coisa para esconder isso de todo mundo”, conta ela. “Essa parecia ser minha única opção em um mundo onde as pessoas deprimidas são vistas como pessoas obscuras e sem vida, não como líderes triunfantes, inspiradores e visionários”.

Isso a levou a ter uma visão negativa sobre si mesma. Ela não era forte, afinal, tinha depressão e era fraca. Mas essa percepção, felizmente, mudou. “Acabei por aprender uma coisa: o que importa que meu cérebro tem dificuldade de movimentar a serotonina?”, diz. O baixo nível de serotonina no cérebro foi por muito tempo associado como uma das causas da depressão. Ela conta que, ao aprender a lidar com a depressão em vez de lutar contra ela, se tornou uma profissional mas também uma gestora melhor. Veja como:

“Sou boa em repetir tentativas constantemente”
Tratar a depressão é um quebra-cabeça – há muita tentativa e erro envolvido nesse processo. Não há dois casos exatamente iguais. Por isso, você aprende a não desistir, mas a experimentar várias opções de tratamento, terapias e remédios naturais. Alguns funcionam, outros não, e descobrir isso pode ser um tanto frustrante.

Mas, neste processo, Libby diz que aprendeu a reconhecer que a utilidade de repetir tentativas não é restrita ao tratamento da depressão. Experimentar é vital para o processo de criação. “Desenvolver um sistema de uma forma que os usuários entendam e que os engaje requere paciência para realizar testes, e eu me tornei muito boa nisso”, conta.

“A percepção te dá poder”
“Quando eu era muito nova para entender minha condição, aprendi a ser altamente perceptiva. Eu não queria que ninguém se preocupasse comigo, então me tornei muito consciente do ambiente e aprendi a ler e interpretar as pessoas e sua linguagem corporal”, diz ela. Em outras palavras, ela estava desenvolvendo sua inteligência emocional. “Todos os dias sou muito grata pela minha percepção aguçada, porque eu vejo padrões e faço conexões que os outros não fazem”, afirma. Isso foi especialmente importante para formar uma equipe e identificar as dinâmicas de cada um que, se não fossem percebidas, poderiam criar um ambiente de trabalho tóxico.

“Aprendi a ouvir de verdade”
“Quando eu estava tratando minha depressão por volta dos 20 anos, passei a tentar me escutar”, diz. Ela teve que aprender a ignorar aquilo em que ela queria acreditar (que não tinha depressão) e a ouvir a verdade (que ela estava sofrendo e precisava de ajuda).

A habilidade de silenciar o barulho e ouvir – realmente ouvir – é algo extremamente importante para um gestor. “Eu sou muito focada em escutar o que as pessoas da minha equipe têm a dizer, bem como os clientes e os usuários para descobrir a verdade”, afirma ela. Com o tempo, Libby aprendeu que a habilidade de ouvir é subestimada no ambiente de negócios, que recompensa desproporcionalmente a fala e o fazer.

“O riso importa (muito)”
“Minha condição me deu um presente: um senso de humor estranho”, diz Libby. Não há nada de engraçado na depressão, mas durante sua recuperação, ela aprendeu a rir novamente, o que mudou sua vida, diz. “Eu aprendi que a habilidade de rir para afastar a dor pode ser mais efetiva do que qualquer terapia”, conta. Da mesma forma, ao gerenciar uma equipe, o riso cria a intimidade que todos precisam para confiar uns nos outros.

“Sou menos defensiva a críticas”
Ao lutar contra a depressão, otimismo não é algo muito abundante. “Mas houve momentos em que a escassez de otimismo me ajudou no trabalho”, diz ela. “Quando você coloca toda a sua energia em um projeto, pode se sentir muito confiante de que vai dar tudo certo. Isso faz com que você tenha resistência a aceitar a probabilidade de erros. No entanto, por causa das minhas expectativas pessimistas, eu não penso assim”. Por exemplo, quando um cliente diz a ela que uma interface não é amigável para os usuários, ela não ignora esses comentários ou fica na defensiva. “Dessa forma, eu consigo analisar o problema e buscar uma solução”, diz.

Fonte: Época Negócios